SOBRE EMPATIA, PIEDADE, COMPAIXÃO.

(Síntese a partir da leitura do livro A Revolução do Altruísmo, Mathieu Ricard, Palas Athena, 2016.)

empatia (2)

Empatia:

Singer e Vignemont a definem como um estado afetivo semelhante (isomorfo) ao estado afetivo do outro, desencadeado pela observação ou imaginação do estado afetivo do outro e que implica a tomada de consciência de que é o outro que inspira nosso estado afetivo.

Os polharrimeiros sinais de empatia num bebê aparecem junto com os primeiros sinais da distinção dele com os outros, entre dezoito e vinte e quatro meses, próximo ao momento em que ele começa a reconhecer sua imagem em um espelho.

O teste clássico consiste em se fazer uma marca de cor vermelha na testa de um bebê, sem que ele perceba. Quando a criança se reconhece num espelho, tende a buscar tocar a marca vermelha.

Como não há espelhos na floresta e nos oceanos, foi surpreendente para etólogos, descobrirem em suas pesquisas que, inúmeros animais tenham passado por esse teste de forma semelhante.

Os primeiros foram os grandes macacos, como demonstrou o psicólogo e especialista da evolução Gordon Gallup, em 1970. Depois foram os golfinhos, os elefantes e as gralhas. Posteriormente muitas outras espécies continuam passando e respondendo positivamente ao mesmo teste.

Em 1999 uma equipe de neurocientistas observou que neurônios em forma de fuso, muito particulares, denominados de Von Economo (ou de células VENs ou ainda neurônios-espelhos), estavam presentes entre as 28 famílias de primatas, nas quatro espécies de grandes macacos e em humanos. Depois identificaram as mesmas células em baleias, elefantes e golfinhos. E continuam encontrando em outras espécies animais.

Existem correlações entre a presença de células VENs, o reconhecimento de si mesmo em um espelho (o outro) e a capacidade empática avançada.

A empatia pressupõe ressonância afetiva com o outro, fazendo claramente a distinção entre si e ele (não confundo meu sentimento com o da outra pessoa).

É um sentimento que oferece um caminho mais direto e preciso para prever o comportamento do outro.

É preciosa ferramenta de comunicação.

Portal que pode abrir caminho para o sentimento da Compaixão.

Pode também propiciar desconexão com outras pessoas caso, quem a sentir,  julgar os outros como culpados pelo sofrimento da pessoa com quem empatizou.

O psicólogo pesquisador Daniel Batson elencou oito estados empáticos diferentes :

  1. Conhecimento cognitivo do estado interior do outro:

Podemos estar cientes do que o outro pensa e sente, mas nos manter alheios à seu destino.

  1. Imitação motora e neuronal (contágio emocional):

Percebemos alguém em determinada situação e adotamos um estado análogo, num mimetismo corporal e facial, acompanhado de sensações similares as que o outro está experimentando.

O processo de imitação, por observação dos comportamentos físicos é também a base para os mecanismos de aprendi
zagem transmitidos de um indivíduo ao outro (crianças aprendem por imitação).

Este estado ainda não é considerado empatia por muitos, porque nele, as emoções do outro se confundem com as nossas. Sinto a emoção do outro sem consciência de que ele é quem está sentindo. Estou inconsciente do que acontece comigo. É um estado que pode vir a ser o ponto de partida para o sentimento empático.

É experimentado por crianças pequenas e animais: um bebe chora quando escuta outro bebe chorando, um cão uiva quando escuta outro uivo ao longe.

  1. Ressonância emocional:

Sinto o que o outro sente. Experimento emoções muito similares. Pode desencadear uma motivação altruísta mas, pode ser também que a emoção que eu experimento, a partir desse contato, me incomode tanto que iniba minha solicitude. Se diante de uma pessoa atemorizada eu sentir medo também, posso me ocupar muito mais com minha ansiedade do que com a situação do outro e me afastar.

  1. Projeção intuitiva na situação do outro:

“sei porque se fosse comigo eu estaria sentindo…”

  1. Representação cognitiva:

Representação clara dos sentimentos do outro a partir do que observo em sua expressão, em função do que conheço sobre valores e necessidades daquela pessoa.

Este estado não garante motivação altruísta.

A pessoa compreende a perspectiva subjetiva do outro sem entrar em ressonância subjetiva (“eu sei o que o outro sente”). Pode ser usado a serviço da manipulação de outro.

  1. Imaginação sobre o que sinto se estivesse no lugar do outro:

“imagino como seria se estivesse no lugar de…”

  1. Aflição empática:

Quando testemunhamos o sofrimento de outro ou o evocamos o que sentimos não necessariamente se trata de uma identificação com o outro mas, pode ser uma ansiedade pessoal desencadeada por aquilo observado no outro.

Essa emoção pode gerar afastamento do outro como auto-defesa do contato com a impotência e com minha vulnerabilidade.

Esta é a base da impotência infantil ante conflitos familiares: a criança quer resolver os conflitos familiares para reduzir seu sofrimento e sentimento de desamparo. O sofrimento da pessoa que amamos, naquele momento, é sentida como um fardo que só aumenta nossa aflição. A ação aflita é para poupar-me do sofrimento que não quero que o outro sofra.

Quando acontece da dor urgente do outro nos remeter à nossa é importante, se for possível, voltar o foco da atenção para o outro e acordar em nós o cuidado com ele. Logo depois, é importante revisitar nosso estado de vulnerabilidade pessoal não aceita, para ser cuidada.

Este último é um estado semelhante á Piedade.

Experiências monitoradas por neuro-imagens trazem informações  precisas de que a ressonância empática, quando sentida repetidas vezes, pode causar exaustão emocional e aflição.

É o que vivem, por exemplo, profissionais que lidam constantemente atendendo pessoas atormentadas por sofrimentos e que não reconhecem seus limites humanos, sua  vulnerabilidade e portanto, não priorizam o cuidado de suas necessidades:  “burnout” em inglês (exaustão emocional) ou fadiga empática, que é caracterizada por um sentimento de aflição e de impotência, difíceis de suportar.

  1. Solicitude empática:

Caracterizada pela tomada de consciência das necessidades do outro, acompanhada do genuíno desejo de voltar-se para o outro em seu apoio (motivação altruísta) pelo prazer que isso acarreta.

Diferenças entre Compaixão e Piedade:

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Compaixão é uma relação entre humanos que se sentem semelhantes.

Entre pessoas que se reconhecem com o mesmo valor.

Não há pois, alguém que ocupa a posição do progressivo, superior e outro, na posição regressiva e inferior.

Piedade é pena. Sentimento de comiseração egocêntrica. Imbuída de um sentimento de superioridade e de subestimação da capacidade do outro de reorganização.

Quase sempre resulta em sentimento de humilhação receber a doação de apoio motivada pela piedade.

Na piedade o que vem primeiro é a tristeza de quem doa.

Na compaixão o sentimento de quem doa é Amor (reconhecimento e valorização do “outro” como um legítimo “outro”, como eu).

Stefan Zweig diz:

A piedade é “a impaciência do coração para desvencilhar-se o mais rápido possível da emoção incômoda que me oprime diante do sofrimento do outro e que não é compaixão, mas sim um movimento instintivo de defesa da alma contra o sofrimento alheio.”

Sobre a Compaixão:

É definida por Tânia Singer como a motivação altruísta (solicitude empática) em se movimentar em favor daquele que sofre ou está em situação de necessidade não satisfeita.

Envolve três dimensões:

Dimensão afetiva: “sinto o que sentes”,

Dimensão cognitiva: “te compreendo”,

Dimensão motivacional: “quero te ajudar”.

A Compaixão é uma profunda tomada de consciência do sofrimento do outro, acompanhada do desejo de aliviá-lo ou fazer algo para o seu bem. Acontece quando a impotência dá lugar a uma profunda coragem, que nasce do reconhecimento do outro como digno de valor, de cuidado, de Amor.

A Compaixão desenvolve naquele que a sente a força da alma.

Quando o Amor Altruísta passa através do prisma da Empatia ela torna-se Compaixão.

Por Lena Mouzinho – Em 12.02.2017             

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