Árvores: expressão de amor mais abundante da Terra – de mãe para filho

Se você reparar bem, filho, a expressão mais abundante de amor que existe na Terra é uma árvore. Uma mulher me contou isso deslizando unhas vermelhas pelos cabelos que eram riachos coloridos. Ela tinha uma fala macia, firme e distraída.

Suas palavras pareciam dádivas, obviedades mágicas trazidas pela chuva que se espalhava do outro lado do vidro da janela, naquela tarde. E eu prestei muita atenção, pra te contar depois. E pra recontar pra mim todos os dias antes de dormir. E antes de acordar.

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Foto: Amanda Mello

Filho, árvores são um grande mistério feliz de autoamor. Belas, generosas,

vivas. São seres mágicos que brotam do chão e sabem permanecer sem deixar de se entregar inteiramente pra vida.

Vicejam todos os dias, sem parar.

Elas estão no mundo há milhões e milhões de anos. Com o passar de muito tempo viraram fóssil, rochas, serras, montanhas. E continuam decorando o mundo com elevações, curvas e pontos altos que cortejam as nuvens. Suas folhas curam, sombreiam, alimentam. Elas se deixam habitar por muitos seres vivos, são distribuidoras de eletricidade do viver.

São casa, são lar.

Dançam com o vento e celebram o céu. Crescem e enfeitam o mundo de cores e formas e coroas e véus e saias espalhadas por dentro do chão. Árvore é oxigênio nos permitindo existir. Seiva, frutos de sumos espalhados em solos e mesas do mundo. Sabem renascer. Ser, doar, compartilhar um estar no mundo de puro amor.

Mas, escute o que assim me foi dito: ela só pode ser tanta maravilha porque o maior e principal objetivo de sua vida é se nutrir.

É preparar seu alimento com toda leveza e sofisticação da natureza.

Observe.

Todos os tempos de segundos e minutos e horas e dias que se transformam em anos e décadas e séculos de uma árvore são por ela utilizados para seu autocuidado, sua nutrição, numa constante diária liturgia de contemplação e culto de se bem-querer.

Mãe e filha de si, elas têm uma essência de se olhar bem fundo, pra dentro.

Sua existência é interior. De criação e expressão de ser e se bastar e se amar mais, para assim, e somente assim, se expandir. E ser compaixão em tantos outros.

Arvores produzem seu próprio alimento, filho. Vivem em busca de luz, todo dia.

E da água necessária, sagrada e viva, do céu e do chão. Na falta de claridade, os galhos se expandem na direção do sol. Na estiagem, as raízes rodopiam, circulam e dançam pelo chão do planeta, até encontrar mais água. Elas reservam alimento, sabem esperar. Sorvem do mundo o melhor para si em todo o seu tempo de vida. E fazem oferta de si, desprendidamente, plenas, cintilantes.

Se há plenitude interna, há raiz, sustentação – compreenda e guarde, respire, filho. Se há vida interior, é possível sobreviver a outonos secos e invernos congelantes. É possível ser abrigo, paz, enfeite de casas e florestas. Ser parceiro de tudo que é vivo. Tempo de autoamor vira sabedoria de se deixar habitar e trocar maravilha. Descansar em si propicia pássaros, borboletas, animais, ar, insetos coloridos e danças, longas danças com muitos pares e círculos do universo.

Ame esses seres sábios, filho. Veja o mundo e esteja em si para que você possa ser árvore. Seja árvore, amor. É o que te desejo.

Mamãe

Carta de Patrícia Rameiro para seu filho, inspirada e também dedicada à Lena Mouzinho.

 

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