Raiva é mais uma emoção (Parte II)

APRENDENDO COM A RAIVA!

atenção plena

Há que se ter cuidado para não agir sob o efeito do impulso gerado pela raiva.

Podemos escolher aprender usando a emoção como pista sinalizadora em nossa trilha interna. A aprendizagem será resultante da profunda excursão em nós.

O que podemos fazer quando identificamos a “chama” da raiva crescendo dentro?

Gosto da proposta sugerida pela prática de Mindfulness ou Atenção Plena: recolher-se aos primeiros sinais num silêncio protetivo e auto observador, como se aquietássemos para testemunhar o estado raivoso. Vale atentar: quando a “chama” acende enquanto estamos em conversa com alguém é bom informar ao interlocutor que precisamos dessa pausa para nos proteger, a ele próprio e a relação.

E, no lugar protegido, respirar profundamente na raiva, possibilitando a contemplação dos seus sinais em nosso corpo, sem julgar, sem censurar e sem rejeitar a emoção. Isto pode nos facilitar o contato com informações importantes para compreender-nos como: que pensamentos-combustíveis estou utilizando para alimentar o incêndio interno?

Podemos contemplar os pensamentos que alimentam a raiva, como nuvens que passam no céu…indo…Até porque aferrar-se a esses pensamentos, revendo imagens mentais e diálogos que aconteceram, só a fortalecem. Fortalecê-la é necessário para que? Vai resolver alguma coisa, de fato? Precisamos transformar a dor em sofrimento?

A atenção na respiração profunda, consciente e continuada, tem o poder de, com o tempo de prática, ir reduzindo as labaredas e deixando somente claridade.

Quando torna-se difícil deixar o “fogo” perder intensidade, vale mudar o foco da atenção para outros estímulos, buscando contato com aspectos da vida que nos trazem bem estar: escutar música, dançar, caminhar, correr, tomar banho, etc… Pois a Vida é muito além do que esse instante!

Depois do incêndio

Ao conseguir que o fogo vá perdendo intensidade, respirando sempre e profundamente, podemos relembrar a situação que usamos como estímulo para sentir raiva.

Este pode ser um bom momento para investigar nosso modo de olhar, pensamentos e crenças que desencadearam e nutriram a emoção: julgar sem elementos suficientes, interpretar,  rejeitar a percepção do outro, acusar e culpar, imaginar vingança…Vale buscar as evidências – aquilo que é observável – destes nossos pensamentos (o que garante que é do jeito que estou achando que é?), pois nossas fantasias sobre os outros são capazes de construir batalhas sangrentas.

No conquistado silêncio protetivo e respirando profundamente é que podemos exercitar nos observar como testemunha de nós mesmos. Como se estivéssemos a uma certa distância e assistíssemos alguém que pensa os pensamentos. Para que?

É que uma potente chave para abrir a cadeia dos nossos muitos apegos – de onde emerge a raiva – é o reconhecimento de que, as “realidades” às quais reagimos, são de nossa própria criação, espelhos de nós mesmos e de nossas necessidades não satisfeitas.

reflexo.Por exemplo: “Senti muita raiva dele, quando o vi checando a informação que lhe dei, com outra pessoa. Interpretei seu comportamento como que estava desconfiando de minha honestidade. E eu sinto uma forte necessidade de que me reconheçam pela imagem que luto para ter: de pessoa ética, integra e confiável. Será que me sinto verdadeiramente conforme a imagem que quero que os outros tenham de mim? E pra que preciso tanto dessa imagem?…Essa é realmente a única forma que vejo para dar conta de minha sede de valorização e de que me reconheçam?”.

Quando despertamos a compreensão de que a fonte de nossa raiva está em nossas necessidades não satisfeitas e não naquilo que estamos culpando, liberar-nos dos apegos que nos causam raiva pode tornar-se mais fácil. Perceberemos a situação e o comportamento do outro mais como um estímulo que nos trouxe à tona – consciência – aquilo que precisamos investigar para cuidar melhor de nós mesmos. Daí, somos capazes de buscar estratégias eficientes para cuidar de nossa necessidade identificada. E de trabalhar a fixação naquela “única” forma que eu conseguia vislumbrar para atendê-la. Pois há muitas e muitas possibilidades outras de satisfazer nossas necessidades.

Isso não significa permitir que nos façam mal, quando o mal realmente tiver sido feito. Significa sim que não nos deixaremos como reféns do mal que o outro fez, intencionalmente ou não. E isto é libertador!

O outro é meu espelho

Quando julgamos características, escolhas e posturas de outra pessoa como inadequadas é possível que a raiva acompanhe tais julgamentos. Possivelmente, as impressões negativas à cerca do outro, sejam resultantes de termos espelhado nele algo nosso, censurado, negado. Se não condenássemos tanto algo em nós, não reagiríamos com tamanha intensidade quando isto aparece em outra pessoa.

passaro espelho

Uma sugestão para saber mais a respeito de si, neste sentido?

Enumere as características e ações atribuídas por ti a outra pessoa, ante as quais sentes raiva.

Investigue honestamente como essas características se apresentam em ti e quando realizaste ações similares: se for hipocrisia, por exemplo, busque descobrir como e quando não estás sendo verdadeiro. Desonestidade, traição, ambição, inveja, arrogância? Investigue o que isso tem que ver com o como te relacionas contigo, com os outros e com o mundo.

Examina tuas crenças sobre ti e sobre os outros. Se te apegaste a crença de que “todos tem que ter consideração comigo” é possível que penses também: “Se as pessoas não me tratam com consideração estão dizendo que não tenho valor e me ressinto disso”. Examina então: Como tens te desconsiderado em tua história? Como estás te tratando com desconsideração no dia-a-dia? Como desconsideras outras pessoas nas tuas relações?

Este não é um exercício fácil pois aprendemos a esconder e a rejeitar, veementemente, essas nossas faces de nós mesmos, não nos responsabilizando por elas e projetando-as ao nosso redor.

Ao identificar esses aspectos em ti, busca encará-las como “verdes-ainda-não-maduros” e não como defeitos ou inferioridades. E cuida-te, com atenção perseverante e gentil. Enquanto não curo minha relação comigo mesma, vou continuar reagindo ao meu espelho, que é o outro.

Ao mergulharmos em nosso misterioso oceano e encontrarmos mais conosco, descobrindo um pouco mais sobre nós, podemos escolher mais livremente o que e o como fazer com a raiva. Podemos nos dedicar a cuidar de nossas necessidades identificadas, seguir e deixar seguir, buscar diálogo esclarecedor com o outro, tomar providências legais, enfim…

Quando nosso olhar se amplia e aprofunda, o poder para fazer a nossa parte por um mundo melhor aumenta também. E podemos utilizar a força gerada pela consciência para nos realizar como humanos, construindo conexão essencial conosco e com os outros.

Belém, 21/06/2016

Lena Cristina Barros Mouzinho

lenacristinam@gmail.com

 

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1 comentário Adicione o seu

  1. Diana Alberto disse:

    Como sempre, forte, intenso e lindo, belo texto Lena. Obrigada por partilhar essas belezas da vida conosco.
    Diana Alberto

    Curtir

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